Esportes nos EUA: reafirmando ideais de americanidade.
Uma sociedade sempre reflete seus valores através de elementos culturais, seja através da culinária, da língua ou até mesmo do lazer (DATESMAN et al, 2014). E nos Estados Unidos da América, não seria diferente. Até mesmo no esporte é possível identificar alguns reflexos de quem é o povo americano em sua essência. O país detém um dos maiores pólos de financiamento ao esporte, especialmente ao Futebol Americano, Basquete e Beisebol, que têm aderência enorme por parte da população ianque.
Para compreender melhor essa afirmação, é necessário ir um pouco mais a fundo, observando aspectos relativos às bases que sustentam a cultura americana. Quando o assunto são os Estados Unidos, é bastante comum que venham à tona discussões a respeito da imigração e da famosa concepção de "sonho americano". Essas duas palavras-chave se complementam, uma vez que existe uma ligação bastante particular entre elas. A imigração de pessoas para os EUA acontece de maneira constante, e há toda uma motivação por trás dessa procura pelo espaço em solo americano: a certeza de que ali encontrarão oportunidades para a melhoria de vida.
Toda essa idealização faz parte de traços culturais observáveis no povo americano. De acordo com Datesman et al (2014, p. 32):
“Três representam os motivos tradicionais pelos quais os imigrantes foram atraídos para a América: a chance de liberdade individual, igualdade de oportunidades e riqueza material. Para obter esses benefícios, no entanto, havia preços a serem pagos: autossuficiência, competição e trabalho árduo” (tradução nossa)¹.
Nesse sentido, quando falamos na paixão dos americanos por esportes, nos deparamos com uma grande estrutura construída em vista da manutenção de alguns desses valores. Há uma paridade estabelecida entre os valores de igualdade de oportunidades, e competição. Entretanto, ao se falar em igualdade de oportunidades, um americano compreende esse termo não como indivíduos em situação de igualdade - que é justamente onde entra a ideologia de meritocracia (DUBET, 2012) -, mas como indivíduos com chances iguais de alcançar o sucesso, independente de raça, credo ou posição social. Pessoas podem ter mais vantagens que outras, mas para eles, o mais importante é a oportunidade de alcançar as mesmas conquistas.
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Sabendo disso, a organização dos esportes nos Estados Unidos traz consigo o ideal de igualdade de oportunidades, como afirma Datesman et al. (2014, p. 232): “Nos esportes, pessoas de diferentes raças e origens econômicas têm chances iguais de se destacar” (tradução nossa)². Gradualmente, os esportes americanos tem ampliado abertura também à participação de mulheres, que cada vez mais se destacam em competições, assim como oportunidades de patrocínio como reconhecimento de seu esforço e incentivo.
Ainda nessa perspectiva, outro valor tradicional americano que se apresenta de forma firme nos esportes, é a competição. O espírito de competição é desenvolvido desde a infância, seja pelas famílias, seja pela própria comunidade americana.
Em extensão, o incentivo aos esportes e à competição chega até às escolas, e faculdades, nas chamadas atléticas amadoras. Ainda, existem também as ligas de esportes organizados, dos quais fazem parte também, os atletas profissionais. Em vista de tais fatos, a indústria dos esportes movimenta anualmente milhões de dólares. Segundo Datesman et al (2014, p. 234):
“Outra crítica ao esporte profissional é que os jogadores e os donos dos times ganham muito dinheiro, enquanto os torcedores têm que pagar cada vez mais os ingressos para os jogos. As estrelas do basquete, beisebol e futebol obtêm contratos multimilionários, semelhantes a cantores de rock e estrelas de cinema”. Dessa forma, embora haja muito dinheiro em jogo nessa indústria, existe também uma divisão desigual do que se arrecada, sendo alvo de críticas por muitos americanos do ramo” (tradução nossa)³.
Outro exemplo de como a cultura desportiva é incentivada em larga escala nos Estados Unidos, é o impressionante desempenho que o país obtém a cada edição dos Jogos Olímpicos, a maior competição a nível global do mundo. O país consegue sempre se posicionar nas primeiras posições do quadro geral de medalhas das Olimpíadas, reflexo de valores imbuídos na cultura de forma geral desde a mais tenra idade. Observe abaixo o quadro geral de medalhas dos Jogos Olímpicos de Tokyo 2020, realizadas no ano de 2021.
Fonte: olympics.comComo consequência da grande abertura incentivada pela chance aparente de obtenção de êxito, o esforço para tornar-se o melhor nessa corrida é cada vez mais enfatizado. O fato de esforçar-se para conseguir algo, saindo da zona de conforto e a negação da preguiça, é algo louvável entre os americanos. Isso é expresso com base em premissas da religião cristã, da qual muitos dos praticantes de esporte do país são adeptos.
Para alguns, entretanto, é necessário ir além disso, e conseguir a vitória, de fato. Vencer é a única finalidade atribuída à prática de esportes competitivos. Em vista disso, um dos problemas que mais tem acometido a integridade dos esportes no país, é o abuso de drogas de aumento de performance.
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Essa prática fere diretamente o "fair play" (jogo justo).
Frente a essas considerações, a obstinação por sempre estar no topo levanta questionamentos e discussões entre a comunidade americana a respeito do verdadeiro sentido dos esportes. Até que ponto é saudável incluir a competitividade no seio da vida do cidadão americano? Será que a competitividade está sempre de acordo com a figura de herói americano que os EUA impõem ao mundo?
¹ "Three represent traditional reasons why immigrants have been drawn to America: the chance for individual freedom, equality of opportunity, and material wealth. In order to achieve these benefits, however, there were prices to be paid: self reliance, competition, and hard work."
² “In sports, people of different races and economic backgrounds get an equal chance to excel”.
³ “Another criticism of professional sports is that the players and the team owners get too much money, while fans have to pay more and more for tickets to the games. Basketball, baseball and football stars get multi-million-dollar contracts similar to rock singers and movie stars”.
Referências Bibliográficas
DATESMAN, Maryanne Kearny; CRANDALL, Joann; KEARNY, Edward N.. American Ways: an introduction to american culture. 4. Ed. New York: Perason Education, 2014.
DUBET, François. Os limites da igualdade de oportunidade. 2012. Disponível em: http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php/cadernos/article/view/187. Acesso em: 17 dez. 2021.
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